28 de novembro de 2009

Inteligência Acadêmica e Inteligência Filosófica

Foto: Jardim Botânico (RJ)
Um dia destes, debaixo deste calor violento que assola o Rio de Janeiro, estava eu (com filtro solar, claro!) na piscina lá em casa, com uma geladinha na mão e de papo com a minha amiga Drica.Acho que com a combinação da cabeça quente com a garganta gelada, comecei a filosofar sobre minha diferente crise dos 40.
Minha crise é um pouco diferente da que passam as demais mulheres. Não saí correndo para academia para ficar com "tudo em cima", dar em cima do professor do spinning, tampouco fui mexer no cabelo, na pele ou vislumbrei plásticas. Nada disso! Sem nenhuma falsa modéstia, me acho muito bonita, mesmo! :))))
Então comecei a me questionar o porque está tão difícil eu me sentir à vontade em determinadas situações. Aí eu e a Drica começamos a filosofar - mesmo!

Acabei descobrindo o problema! Claro que longe de mim sair nua gritando pelas ruas como fez meu nobre colega Arquimedes, mas um clarão se fez em minha mente angustiada (rsrsrs).
A questão é que estamos em uma sociedade dividida em dois tipos de inteligência, A Inteligência Acadêmica (cartesiana, o tal do QI) e a Inteligência Filosófica (as demais inteligências reunidas) .
E o que vem a ser as duas coisas?
Inteligência Acadêmica - O Sujeito faz o primeiro grau, faz cursinho, intensivão, entra para uma escola técnica. No terceiro ano, como ele quer ir para uma "federal" ele submerge nas apostilas cheias de marreta para fazer a prova.
Aí na prova surge uma questão de Química : "os elementos do grupo 6A são divididos entre metais e semi-metais e blábláblá".
Aí a pobre alma pensa: 6A? 6A? quais são? quais são?. Aí lembra da marreta aprendida: OS SETE PORQUINHOS, ou seja O(oxigenio), S(enxofre), Se (selênio), Te (telúrio) e Po (polônio).
Meu Deus! Lembrar dos Sete Porquinhos fez ele ficar na média e passar! que glória! Nunca pensei que a Química fosse tão fácil!
Aí o sujeito faz a faculdade, se forma, já que sabe inglês vira trainee em uma multinacional, é contratado, trabalha, faz pós-graduação e caminha pela vida. Tem carro zero, um ótimo apartamento, faz atividade física
UAU! isso é legal! o cara se esforçou, passou por uma faculdade, tem seu trabalho, tem tudo e ainda quer ir além. ÓTIMO!, ELE É UM DESTES CARAS PERFEITOS! Esse é o "partidão"
Bom, agora vamos ver o próximo caso...
Inteligência Filosófica - O Sujeito faz tudo igualzinho ao primeiro, e por isso eu não vou repetir a história dos OS SETE PORQUINHOS aqui, mas depois que ele consegue entrar para a faculdade ou para o emprego, vem a diferença:
O que eu faço com tudo isso? porque devo estudar isso?
Devo aprender (conhecer) ou apreender (interiorizar) determinadas coisas que são ensinadas?
E aí começa o dilema ético, de escolher o que realmente importa para a vida. A partir deste momento temos o desenvolvimento da inteligência filosófica, ou seja, o que aprendo não é apenas para passar de ano, mas sim para percorrer a vida.
Nada impede deste segundo sujeito de ter tudo: carro, casa, ser marombado... mas ele tem uma diferença - ele FAZ diferença.
Ele deixa de se tornar uma pessoa para se tornar A pessoa.
E aí aproveito o gancho para entrar em uma reportagem enviada hoje por um grande amigo entitulada "Inteligência Espiritual". No fim das contas, o que chamo de inteligência filosófica passa também pela inteligência espiritual porque transcende o academicismo da inteligência cartesiana.
Resolvi ler um autor chamado Emmons* e achei um trecho bastante interessante, independente do aspecto religioso:
"A Inteligência Espiritual confere grande habilidade na manutenção e realização dos talentos de alguém. A pessoa espiritualmente inteligente tem adequado senso de auto-aceitação; compreende e aceita suas próprias limitações e imperfeições e está mais livre da arrogância e de seu inverso, a baixa auto-estima. Tal pessoa se mostra flexível na busca de um equilíbrio harmonioso entre auto-conceito, auto-integração e auto-regulação, logrando com suas práticas de meditação e contemplação ver-se mais facilmente como um todo"
E como eu vejo tudo isso?
A inteligência acadêmica lê todas as noticias da sua área, lê todos os livros que podem fazê-lo prosperar na vida profissional. A inteligência acadêmica lê aquilo que o aparentemente faz ser "o tal"na roda de amigos, e até para conquistar alguém.
A inteligência filosófica faz as mesmas coisas, mas faz mais, interage com o mundo de uma forma geral para que o filtro das coisa positivas, que fazem parte de um projeto de vida maior, seja burilado.Este sujeito sabe que em 2016 vai ter Olimpíadas no Rio, ou que ontem a bolsas do mundo caíram por conta de Dubai (como o acadêmico), mas este também tem uma posição a respeito do premio nobel da paz que deram para o Obama, por exemplo.
Sabe analisar o momento que vivemos no mundo.E este cara é o que faz a diferença.
Voltando à minha crise dos 40, ultimamente eu só tenho encontrado (na grande maioria) os inteligentes acadêmicos.
Que além de falarem de seu trabalho, ainda falam de futebol ... do calor no Rio ... da violência ... e ... só! São gente boa pra caramba, mas só! Infelizmente não consigo nem ter um papo sadio sobre futebol pois torço pelo América e todos me olham com piedade...
Onde estão as pessoas que valem a pena sentar num boteco pé-sujo, tomar uma gelada e "jogar fora um dedim de prosa"? Onde estão as pessoas que analisam os emails que recebem para não passarem a outros "acadêmicos" os textos que Shakespeare escreveu, do arsênico no camarão! Onde se escondem estas pessoas? Se vocês conhecerem pessoas assim, por favor, indiquem meu blog para conversar comigo, ok?
Bom... agora que desabafei minha crise no cyber-espaço, vou dizer que nem tudo é tão caótico
Cá estou em pleno sábado (na plataforma, claro!) e eis que começo meu dia recebendo o presente abaixo de um grande amigo, que considerei com o mesmo valor do mais belo dos diamantes, e embora o texto já seja conhecido (assim como todas as jazidas de diamante) o que valeu foi a lapidação do ourives

e assim ele iluminou meu dia...

Poeminha
Tal como diz Milton Nascimento em uma de suas músicas "(...)certas canções que ouço, cabem tão dentro de mim e perguntar carece porque não fui eu que fiz.(...)"
preciso perguntar porque não escrevi esse poema.
Droga.
Mas, se inspirado fosse ou estivesse escreveria assim mesmo.

"Que a estrada se abra à sua frente,
Que o vento sopre levemente às suas costas
Que o sol brilhe morno e suave em sua face,
Que a chuva caia de mansinho em seus campos...
E, até que nos encontremos de novo,
Que Deus lhe guarde na palma de Suas mãos".


* Emmons, Robert. A. Is Spirituality an Intelligence? Motivation, Cognition and tthe Psychology of Ultimate Concern. In: The International Journal for the Psychology of Religion, vol 10: (1), 2000. pp 3-25


2 comentários:

  1. Estou escrevendo um texto sobre inteligência existencial e seu texto foi bem bacana como exemplo. Obrigada.
    Laura

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  2. Olá. Muito legal sua reflexão.
    Ha alguns anos eu publiquei um livro que versa justamente sobre a "inteligência filosófica".
    Sou da opinião de que erudição é útil, mas um homem que possui tão somente erudição nada mais é que uma enciclopédia falante. Transpor, porém, esta espessa fímbria que separa uma mente desperta de uma mente robótica requer não apenas um excedente de rebeldia, mas também coragem e amor pelo saber. Grande abraço!
    Everton Spolaor - www.sombrasdarealidade.com.br

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